quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Beleza quimérica

João e Bilu; eles têm um pouco da cara dessa cidade, desse Brasil.

Por Sabrina Fantoni
Crianças invisíveis é um filme do aclamado cineasta Spike Lee e mais 7 diretores, dentre eles a diretora e produtora Kátia Lund -cujo principal trabalho foi em Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles.

Considero-me suspeita pra falar sobre esse filme que me foi apresentado em 2006, numa aula de sociologia quando eu estava no segundo colegial. Dentre várias histórias, de alguns países como Estados Unidos e Itália, a do Brasil, de João e Bilu, é inefável. Revela uma sensibilidade leve e o brasileirismo hermético presente em cada diálogo e a cada fotografia que abarca a realidade social apresentada de uma maneira cativante e acolhedora; ora alegre, ora desconfortável.
O intuito é realmente incomodar, fazer pensar e analisar a discrepância cultural e econômica presente nessa cidade, na qual, analogamente, foram criadas fronteiras imaginárias e impostas, sobretudo como na África colonizada. A diferença é que aqui elas ergueram-se verticalmente, não só cultural e socialmente mas sim fisicamente. A principal imagem de "João e Bilu" é a fotografia dos edifícios luxuosos localizados na Marginal Pinheiros que tem como paisagem as favelas que estão a alguns metros de distância.
A simplicidade e bondade marcada na personalidade dos protagonistas contagiam até mesmo a pessoa mais cética e alheia. Dois meninos espertos, determinados, lutadores e sempre com um sorriso no rosto, com uma carta na manga. Aquela peculiaridade bem brasileira, que rebate a ideia de que brasileiro é acomodado e preguiçoso; pelo contrário! João e Bilu são o retrato do típico brasileiro que vai a labuta, logo de manhã e volta pra casa só no fim do dia exausto mas com a sensação de dever cumprido.
Pra mim, brasileiro acomodado é aquele que reproduz os discursos manjados e padronizados, que mal sabe da história de seu povo e seu país, quiçá de seu continente, e prefere se conformar com a lavagem cerebral imbuída e calcada nos nossos pré-conceitos ufanistas e edenistas, alimentados principalmente pela educação familiar (tradicionalista).
Fato é que poucos brasileiros regozijam-se da abundância cultural de sua pátria; há uma relação de amor e ódio, de pertencimento e não pertencimento, de identificação e não identificação com as características desse país. Mas posso lhes adiantar que João e Bilu faz com que nos apaixonemos um pouco mais pela cara desse Brasil tão danado, heterogêneo e desfigurado.
Dói. Dói de verdade quando vejo que algum brasileiro odeia o Brasil, me ofendo. É por esse motivo que não esqueço nunca das aulas de Cultura Brasileira do segundo semestre que aprendemos tanto sobre nossas raízes: Machado de Assis, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Gilberto Freyre; Chicos, Marias, Joãos e Josés.
Meu Brasil presente nas massas e maçãs de Almir Sater; no velho e invisível Avohai de Zé Ramalho; no amor malfeito depressa de Chico Buarque; a Juliana do João e do José de Gilberto Gil; no sonho e no pó, no destino de um só de Renato Teixeira...
A beleza se faz presente nos discuros proferidos, nas palavras escritas; a beleza que não é vista em gente como João e Bilu, que não é cantada, mas contada e mostrada da maneira mais verdadeira e simples. Gente desguarnecida que está tão presente no nosso dia-a-dia e que passa despercebida. Só consegue enxergar a beleza aquele que sabe dos seus próprios feiumes. Crianças invisíveis é um filme que grita a beleza e a pureza em meio a sujeira e a podridão.
Quase como uma flor de lótus com suas pétalas auto-limpantes, as crianças ao redor do mundo mesmo com medo, dor e insegurança, transmitem o dom da vida frente ao caos.

Animal, empático, como a gente


Por Sabrina Fantoni

Frans de Wall estudou biologia na Holanda, seu país de origem; é considerado um dos mais importantes primatólogos do mundo e já escreveu mais de 6 livros para o público leigo. Neste vídeo ele fala sobre neodarwinismo, sociedade capitalista e a empatia presente nas relações animal-humana
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Estou terminando de ler um livro, que nos foi indicado pelo nosso querido e estimado professor de comunicação e cultura, Fernando Salinas, logo no início do curso: Eu, primata - porque somos o que somos, do primatólogo Frans de Waal lançado em 2005.
Inicío esse post com o vídeo do autor falando sobre o assunto que quero tratar aqui: Empatia.
O conceito desse termo basicamente é: sentir como se fosse o outro; entender e se propor a sentir aquilo que o outro possa estar sentindo em determinada situação. A empatia começou a ser estudada recentemente pela ciência, pois antes consideravam-na algo relacionado à misticismo ou espiritualidade; hoje entende-se como uma das características evidentes da nossa condição humana.
Devo reiterar que é explícita não só nas relações humanas -embora na nossa espécie seja mais desenvolvida, desde os primeiros anos de vida- mas também nos animais, principalmente mamíferos. O principal pensamento que tirei dessa obra é do porque assimilamos a brutalidade humana com a selvageria animal. E quando algum animal -geralmente cães, macacos- pratica um ato "heróico" é reverenciado como humano, e tratado como algo inacreditável um ser irracional ser solidário e se prontificar para ajudar alguém da mesma espécie ou nao. Casos assim são quase que frequentes na mídia, como se fossem excepcionais e de grande relevância, como o do cachorro que pulou na frente de uma cobra quando percebeu que essa iria atacar seu dono -um menino ainda criança- e recebeu, assim, o veneno no lugar dele.
Penso que devem, sim, ser noticiados casos assim, entretanto, não tratados como algo inédito, pois essa solidariedade e ímpeto não se restringem somente aos humanos.
Foi construída uma estética de pensamento, classifico eu, de maniqueísta; o belo e o feio, o certo e o errado, o humano e o animal. A violência, brutalidade, competição e a insanidade nos é inerente, no entanto atribui-se todas essas características aos animais irracionais; ao passo que também é inerente a nós a generosidade, a empatia, a bondade e a resignação, essas também presentes e inerentes aos animais, muito embora não lhes damos esse crédito.
Frans de Waal destaca que não só somos tão selvagens e cruéis quanto os animais, como podemos ser mais brutais do que eles. Todavia, também podemos ser muito mais bondosos, gerenosos e empáticos.
Amo os animais; vivo falando que não gosto de gente mas me contradigo nesse ponto o tempo todo. Certa vez, eu e Vanessa Yazbek fomos comprar roupas, entramos numa loja e saímos sem levar nada. O vendedor foi muito educado, sem aquela afobação de querer vender, havia apenas uma simples boa vontade de atender bem à um cliente, tanto que quando fomos embora ele deu um sorriso verdadeiro e nos chamou de "meus amores" logo que o agradecemos pela atenção. Saímos de lá nos olhando com um ar de satisfação que não conseguimos não comentar sobre o ocorrido até que soltamos um "Ah, fofo..." na mesma hora.
Teve também um fato que aconteceu comigo, inesquecível. Estava eu no ponto de ônibus indo para o Mackenzie quando fui abordada por uma velhinha de 84 anos; ela aproximou-se e falou: "Oi, meu anjo lindo de vermelho e branco" e começou a me contar de sua vida, de situações fortuitas e pediu pra eu nunca desanimar seja lá por qual motivo fosse. Ela sabia que eu estava aguardando meu ônibus e quando eu olhava para o lado para verificar se ele já estava chegando, ela mesma se prontificava para me avisar assim que avistasse o 'Praça Ramos'. Não me esqueço da doçura presente em seu olhar e na simples vontade de expressar o que sentia naquele dia, distribuindo sorrisos pra quem quer que passasse ou parasse no ponto. Todos a observavam com carinho, como se fosse uma criança linda. Aquilo simplesmente fez o meu dia, pois pude ouvir alguém que simplesmente queria me contar algo, além de toda simplicidade e generosidade que absorvi daquela pequena senhorinha. Creio que esse foi o ápice da empatia que já vivi nesses 20 anos de idade.
Fato indiscutível é que muita gente não teria dado atenção para a velhinha ou ficaria ouvindo-a de má vontade; talvez até eu poderia estar num dia terrível, nada disposta para conversas aleatória num ponto de ônibus, mas ela simplesmente me ganhou, e olha que eu nem sou tão sociável assim.
Tem um trecho do grande clássico de George Orwell - 1984, que para mim, é o exemplo cru de empatia; não de humano para humano, mas sim de humano para com a natureza, uma força maior, àquilo em que acreditamos e que nos move:
“... -Os homens são infinitamente maleáveis [...] são inermes, como os animais. A humanidade é o partido.
-Não me importa. No fim haverão de vos derrotar. Mais cedo ou mais tarde verão o que sois, e então vos estraçalharão.
-Vês algum sinal de que isso aconteça? Alguma razão para que aconteça?
-Não. É o que acredito. Sei que falhareis. Há algo no universo... não sei o quê, um espírito, um princípio, que nunca podereis vencer.
-Acreditas em Deus, Winston?
-Não.
-Então o que é esse princípio que nos derrotará?
-Não sei. O espírito do Homem.
-E tu te consideras homem?
-Sim."
Talvez o vocalista da banda Nirvana, que se suicidou em 94, Kurt Cobain tenha cometido tal ato pela apatia e falta de perspectiva em si enquanto homem, ou também, enquanto homem e sociedade. Pode ser que pela ausência de empatia que em sua carta de despedida ele escreveu essa palavra muitas vezes no final de seu texto...
"Empatia, empatia, empatia..."
Assim como a criança de 2 aninhos que chora ao ver o amiguinho chorar; assim como o cão que se prontifica a lamber as lágrimas de seu dono, assim como um gorila que fica transtornado -mesmo em sua condição de selvagem- ao perceber que feriu alguém de sua espécie, ou nao; Assim como eu fico desesperada ao ver minha mãe inquieta por não saber onde meu irmão se enfiou; ou aquela sua amiga que está sofrendo por amor e você se pudesse faria de tudo para aliviar a sua dor.
Por fim, a empatia consolida nosso estado de ser humano-animal, e consolida o estado do animal-ser humano.

A sombra da sua sombra

Por Sabrina Fantoni

Acordava bem cedinho para aproveitar o café recém saído e o pão quentinho. Aquela manteiga gorda e o leite espesso, direto da vaca; eu era capaz de sentir o gosto e a textura só de imaginar, ainda mais quando a gente ouve aquele tilintar da colher do café na xícara e dele enchendo a caneca. É lindo... quase simbólico. A poeira e o cheiro de cana queimada contribuíam para a sensação quente e seca de Ribeirão Preto, cidade onde alguns dos Fantonis da minha família se firmaram e continuaram suas vidas. Eu me preparava para voltar pra São Paulo das férias de julho que havia passado lá, quando, ainda na mesa do café, meu primo tira de sua pasta um presente para mim; era um cd gravado com as canções de Nina Simone, uma grande cantora de Jazz dos anos 50, norte-americana. Como sempre soube do bom gosto musical de meu primo, Tim, sabia que era algo no mínimo respeitável.
Dona de uma voz maravilhosamente negra, com aquela peculiaridade e entonação grave, Eunice Kathleen Waymon Adotou o nome Nina, que veio de pequena (little one) e Simone por causa de sua atriz preferida, Simone Signoret, grande nome do cinema francês.
Nascida em 1933, na Carolina do Norte, ficou mundialmente conhecida por sua interpretação de "My baby just cares for me", e uma das mais lindas versões de "Ne Me Quitte Pas" de Jacques Brel também cantada por ela.
Mulher de fibra, recusou-se a viver em seu país de origem pois não aceitava continuar morando num lugar onde sua "raça" não era respeitada; cantou no enterro do pacifista Martin Luther King e sempre foi muito envolvida na questão do preconceito racial. “Mississippi Goddamn” tornou-se um hino ativista da causa negra, e fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963.
Foi pela batalha dos direitos civis que, segundo a própria, seus amigos se foram, dentre eles Stokely Carmichael, Malcolm X e Luther king. Apesar da sua força e determinaçao, na sua vida íntima, ela, casada com um policial nova iorquino, era espancada pelo próprio marido.
Nina compunha a lista das mulheres negras de belíssimas vozes do Jazz. Assim como ela, podemos citar Sarah Vaughan, Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Essas que mudaram o cenário musical da época, revelaram o poderio da voz feminina e das mulheres no comando. Depois delas viriam muitas outras que se tornariam referência mundial, como Aretha Franklin e Etta james.
Em 21 de abril de 2003, aos 70 anos, Nina morre dormindo, de causas naturais, em sua casa de Carry-le-Rouet, no sul da França. Assim como todo mundo, a cantora bem sucedida e reconhecida mundialmente, também tinha suas inseguranças, medos e fraquezas. Nina também era gente como a gente, mas era A Nina.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

“Fuck you! I won´t do what they tell me”

Tá, vamos falar de política então. Sinceramente, eu não sei o que é pior: saber que a Dilma será eleita por pessoas que nao a conhecem e projetaram nela a representação do Lula, ou saber que pessoas que se acham esclarecidas fomentam o seu ódio por ela e indignação à sua candidatura proveniente totalmente da manipulação midiática. Agora o engraçado é que antes de saberem que ela seria candidata ninguém odiava a Dilma. Ela era apenas a ministra da casa civil -pouca coisa né? ok- Hoje, aqueles que sempre odiaram o Lula, desde seu primeiro mandato -queimaram a língua pela popularidade, diplomacia e todos os aspectos do que foi o seu governo, principalmente nesse segundo mandato- obviamente terão de ODIAR a Dilma com todas as forças.. Quais os argumentos dessas pessoas? “Vaca, vadia, dondoca.. essa mulher é um monstro.. já foi presa”… bla bla bla. Eu não odeio a Dilma, e como vocês, eu tbm não a conhecia, mas do mesmo modo não a quero como presidente do meu país. Por que? porque eu não aceito, assim como foi a FEBRE Obama, e os americaninhos iludidos acharam que ele seria o salvador e hoje não é nada mais que uma decepção, -com apenas algumas boas propostas como no caso da reforma da saúde, claro que alguma coisa precisa ser mostrada pro mundo inteiro que está funcionando naquele lugar- que os mesmo que apoiaram o Lula após décadas de luta para chegar onde chegou, projete na Dilma o lado mítico dele, carregado de simbolismo, carisma, coisa que ela não tem, não houve tempo e história para ter. Eleger a Dilma é um analfabetismo funcional generalizado. Uma mobilização no mínimo bizarra e quase que inacreditável. Ela pode vir a ser competente, o que não seria difícil, mas é inacreditável pensar que ela é a que tem mais chances de ganhar essa eleição. Não sei o que é mais assustador, acéfalos elegendo a Dilma ou retrógrados, ignorantes e medrosos elegendo o apoiador do latifúndio, o neoliberal "meio de esquerda" José Serra. Como eu não suporto a ideia de ter esse MERDA como presidente do meu país. Seria um sonho ver Plínio ou Marina, dois grandes candidatos esclarecidos com o perfil de gorverno mais desenvolvimentista e revolucionário sendo eleitos. Eleger ambos é votar consciente; poucos votarão, entretanto será um voto certo, convicto. Diferente daqueles que votarão na Dilma, a Bruxa e o monstro que a mídia alimenta cada vez mais dentro de vocês, ou o bonzinho, o tradicional porém engajado Serra -segundo a VEJA, a revista mais palhaça do país- Deixo aqui o meu desejo de boa sorte ao meu querido e amado Brasil.